Integridade que gera negócios

A evolução do entendimento de integridade tem desempenhado um papel importante na evolução dos negócios da Ceptis

Fabricante de tintas e soluções de segurança e rastreabilidade segura, a Ceptis não é uma marca conhecida do público, mas sua missão é de grande utilidade pública e seus produtos estão presentes na vida de todo cidadão brasileiro. Suas soluções são utilizadas em cédulas de dinheiro, documentos como passaportes e CNH e no controle da tributação e da procedência de cigarros. Essas soluções utilizam tecnologias suíça há quase um século e a Ceptis possui o direito exclusivo para comercialização e exploração no território brasileiro. Com vendas de mais de R$ 200 milhões, a empresa tem investido em novos negócios, particularmente em soluções adaptadas para o setor agropecuário brasileiro inovando com monitoramento continuo de fazendas produzindo agricultura de baixo carbono, fruto, entre outras coisas, da evolução do entendimento do papel da integridade dentro da própria empresa, como conta o presidente da empresa, o suíço Philippe Ryser.

A Ceptis, por um olhar mais tradicional, poderia ser enquadrada como uma empresa do segmento gráfico, mas o negócio de vocês, na verdade, gira muito ao redor da integridade, não? 

Na verdade, nosso grande negócio é oferecer soluções de conformidade para o governo e empresas privadas. A Ceptis tem duas linhas de produtos diferentes com atuação em 3 segmentos. A primeira é a de tintas de segurança para papel moeda e documentos de valor que demandam elementos de segurança visíveis e elementos de autenticação do produto.  A segunda é a de rastreabilidade segura utilizada no controle de produção de cigarros, que tem toda uma tecnologia embarcada para ativar  os selos de segurança, em conjunto com a Casa da Moeda do Brasil para o controle de  linhas de produção com equipamentos que podem chegar até 17 cartelas de cigarro por segundo. Utilizamos códigos únicos, tintas visíveis e invisíveis que permitem aos fiscais da Receita Federal fazer a fiscalização de toda a cadeia de produção no Brasil. E, a terceira é a rastreabilidade segura para o agronegócio brasileiro que, atualmente, temos o Semente Legal e o TrustScore.

Como isso tem se dado?

Com os itens de segurança sempre oferecemos um grau altíssimo de conformidade. E na questão do agronegócio, esticamos tanto esse processo que estamos nos tornando certificadores, não só da origem, mas também da qualidade e da sustentabilidade dos produtos. Isso, eu confesso, é fruto do entendimento do mercado agro, da nossa tecnologia, mas também do amadurecimento da Ceptis em relação à integridade. A evolução do nosso entendimento sobre integridade nos levou a compreender que o que exploramos em  nossos produtos e soluções é, justamente, integridade. Isso nos deu muita força para pensar os nossos produtos a partir de uma visão sistêmica, integrada, olhando para o inteiro e para as partes deste inteiro, sabendo que no centro de tudo o que fazemos estão as pessoas, nosso cuidado com a segurança, com a qualidade e com a conectividade da cadeia. Acreditamos que este seja um importante avanço para promover a cultura de integridade setorial local e global.

Passaram a ter um negócio de integridade de certa forma?

Integridade é a essência do nosso negócio. Por meio dos nossos produtos promovemos a cultura de integridade setorial.  Nosso  negócio  agro nasceu a partir dessa visão.  Trabalhamos com um time eficiente; a prática diária da multidisciplinariedade em nossos processos tem nos permitido uma evolução consistente e cada vez mais sustentável. Estimulamos que cada indivíduo seja um agente de integridade ativo no processo de criação, desenvolvimento e exploração dos nossos produtos.  

No caso do negócio de rastreabilidade para o agro, ao atuar como certificador, a Ceptis passa a ter um compromisso com o mercado. É um grau de exposição relevante. A área de integridade faz parte desse processo? 

Evoluímos bastante no que a gente fazia em termos de segurança e conformidade, e pensávamos em como levar isso até o cliente, o consumidor. Aí desenvolvemos um processo em campo, que se chama TrustScore (índice de confiança). Nosso primeiro caso na área foi com uma associação de produtores de sementes forrageiras. Nós checamos a origem e a procedência dessas sementes, fazemos a verificação externa da qualidade e testamos amostras obtidas em diferentes locais para avaliar a germinação e a pureza das sementes, sempre em laboratórios independentes e de forma anônima. Não trabalhamos com autodeclaração, vamos sempre além. Esse processo todo gera índices de conformidade e não-conformidade a partir dos quais calculamos um índice de confiança. Essa informação fica amarrada ao selo, que é uma etiqueta de segurança e o cliente pode verificar quando vai comprar. Ao ter de escolher entre duas sacarias de 20 kg de semente de preços diferentes, ele vai checar que o índice de confiança de um é 50% e do outro 90%. A partir daí o risco da escolha é assumido pelo cliente. Com isso conectamos o comprador a cadeia, e engajamos aquele que é o grande protagonista no processo de transformação da cultura de integridade.

Vocês olham para outras possibilidades de negócios, a partir dessa experiência?

Sim, inclusive um negócio que valoriza a co-criação e a conectividade da cadeia como fator chave para fomentar o crescimento sustentável desde a sua origem. Participamos da Rede ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta),  uma rede  formada pelo Bradesco, pela Ceptis, Cocamar, John Deere, Soesp, pela Syngenta e pela Embrapa que tem o objetivo de acelerar uma ampla adoção das tecnologias de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) por produtores rurais como parte de um esforço visando a intensificação sustentável da agricultura brasileira. O objetivo é fazer crescer no Brasil o correto manejo e a integração dessas práticas numa mesma unidade produtiva. E esse processo tem um gargalo: acesso ao financiamento. Imagina, um agricultor de pecuária intensiva vai ter que começar a cultivar lavoura; ou procurar um técnico agrônomo para fazer esse cultivo. Em ambos os casos será necessário investimento. O que fizemos? Idealizamos um novo instrumento financeiro. A Rede ILPF descreveu as boas práticas do manejo produtivo ILPF, o protocolo ILPF. A verificação e monitoramento contínuo do cumprimento dessas boas práticas é um pilar essencial para a disseminação da cultura de integridade ILPF no campo. Nosso projeto chamado SAFF (Sustainable Agriculture Financing Facility) foi selecionado e homologado pelo The Lab – Driving Sustainable Investment, um laboratório de inovação global para finanças climáticas.  O SAFF é um projeto que oferece um financiamento com uma taxa de financiamento dependendo do nível de Trustscore da fazenda, da propriedade rural. Quanto mais aderente ao processo, mais barato será para o produtor.

Hoje se fala muito de ESG (sigla em inglês para Sustentabilidade, Responsabilidade Social e Governança) e me parece que tanto a plataforma do agro, como essa nova de acompanhamento do manejo, trazem esses elementos com muita força. Muitos fundos de investimento que se dizem ESG têm sido questionados e demandados a auditar e demonstrar que seus investimentos realmente cumprem com esses propósitos. Essas novas soluções podem ser uma alternativa para eles?

Acredito que sim. Vimos com uma tecnologia nova, mais moderna e que faz esse monitoramento contínuo. O Trustscore avalia componente de conformidade ambientais, sociais, econômicos assim como potencial produtivo e cumprimento do plano de manejo. A certificação tradicional, vai até a fazenda, fica uma semana, faz uma avaliação de risco, amostragem, verifica documentos, entende o fluxo de trabalho, faz alguns testes e dá uma certificação por três anos com revalidação anual menos detalhado. O nível de confiança e de reconhecimento da certificação está decrescendo. Estamos entrando nesse ramo ESG para fornecer melhores evidências, algo mais apurado para esse novo instrumento financeiro. E o agronegócio no Brasil vai ter que se importar cada vez mais com isso. A União Europeia acabou de divulgar o resultado de uma consulta pública de que a barreira futura de importações de produtos agropecuários se dará por meio de processos de ESG. O Brasil, sendo um dos grandes exportadores desse setor, querendo ou não, terá que se adequar a isso para não perder mercado no exterior.

Nesse processo de certificações emitidas pela Ceptis, qual o papel da área de integridade e o que ela aportou de expertise na hora de vocês estabelecerem os critérios e os processos de avaliação?

Trabalhamos de forma multidisciplinar, construindo em conjunto e sendo desafiados sempre. Por exemplo, por conta desse novo produto financeiro, veio um pedido para realizarmos uma auditoria de integridade na nossa plataforma. Isso está refletido no planejamento estratégico que estamos implementando neste ano. Essa auditoria será realizada por uma Big 4 que tem essa obrigação para validar o mecanismo do fundo, uma vez que a nossa plataforma se torna central na definição da taxa de financiamento. E para lançar o fundo é preciso auditar a plataforma, não só a tecnologia e a integração, mas também para validar a metodologia. 

É um processo de melhoria contínua. Seremos confrontados pelo mercado e vamos nos adequando, o que não quer dizer que vamos aceitar tudo o que vem do mercado. É interessante quando converso com presidentes de associação de produtores antes de assinar o contrato, eu reforço para eles que a nossa solução tem um único desafio: ela funciona. Isso significa que a associação vai ter que lidar com associados que não estarão em conformidade, dar advertências, multas e correr o risco de ter que excluir algum dos produtores. E isso acontece mesmo. Na primeira associação com a qual trabalhamos, no primeiro ano o índice de não-conformidade foi bem alto. Claro que o nosso trabalho foi questionado se  a nossa metodologia  estava certa, etc… Não mudamos nossa metodologia porque estava em adequação com os procedimentos definidos pelo MAPA. No segundo ano, a taxa de não conformidade caiu em 67%. Tenho orgulho de dizer que, de alguma forma, contribuímos para a evolução da cultura de integridade desse segmento de mercado.

Como é a sua relação, como líder da Ceptis e responsável pelos negócios da empresa, com a área de Compliance?

É uma relação de equilíbrio muito positivo. Trabalhamos muito com o governo, principalmente com a Casa da Moeda, então o Compliance para nós é mais do que mandatório. Para mim, além de ser, temos que parecer, além de parecer, temos que ser íntegros. .Com a orientação da nossa Compliance Officer, Isabela Bragança, temos investido em formas criativas para tornar o compliance cada vez mais efetivo, uma prática diária preventiva, cuidadosa e parceira do negócio. O espírito de conformidade deve estar no DNA de cada um dos funcionários do time Ceptis, todos e todas são embaixadores da integridade dos negócios da empresa. Tem que fazer parte do dia a dia dos funcionários a questão da integridade. E isso é um desafio, porque integridade depende muito também dos valores de cada pessoa. Como sempre reforça nosso Diretor Administrativo, Paulo Paixão, a transformação da cultura de uma empresa passa pelo desenvolvimento efetivo da sua liderança, do Ser, Saber e Fazer. Daí a importância estratégica que damos para a principal porta dessa jornada, a porta de entrada, recrutamento e seleção.

E como balizar esses valores pessoais de cada funcionário?

Trabalhamos muito os valores da empresa, para dar um quadro claro aos funcionários de como pensamos e operamos. Qualquer situação do dia a dia, numa blitz, por exemplo, o policial pede R$ 50 para te liberar rapidamente, ou diz que vai te segurar por uma hora. Qual a reação dos funcionários? A gente não sabe. Cada um tem uma educação, uma experiência de vida diferente. Buscamos treinar todos os nossos funcionários para que eles saibam que não podem pagar funcionários públicos de forma alguma. Por isso também contamos com um Comitê de Integridade – composto por representantes de áreas chave da operação da empresa. Este Comitê conta ainda com o apoio dos Embaixadores de Integridade, que estão espalhados por diversas áreas na empresa  recebem um treinamento mais completo sobre o tema para que atuem no dia a dia como multiplicadores da conduta profissional ética, orientem e tirem dúvidas que possam surgir apresentadas pelos operadores e o pessoal do chão de  fábrica nas atividades de rotina. Assim eles podem responder as dúvidas e aproximar a discussão do tema com todos os profissionais da companhia.

Vocês estão no Rio de Janeiro, cidade que representa (e extrapola) a ambiguidade do Estado e da sociedade brasileira em relação ao que é certo e errado do ponto de vista das regras e leis. Uma linha tênue muito alargada entre o certo e errado. De alguma forma, é um desafio adicional estar inserido nesse ambiente?

Nesse aspecto estar ou não no Rio de Janeiro não impacta no nosso dia a dia, só mesmo quando lembro que estou na cidade que tem uma das sete maravilhas do mundo, o Cristo Redentor (risos). Sou suíço, já morei em São Paulo no passado e estou no Rio há quatro anos. O que para mim foi um choque foi a forma como as pessoas dirigem, observar quantas pessoas param num farol vermelho a noite? Eu aprendi a não parar, por questões de segurança, não por desrespeito à lei. Tem esse desafio, a cultura. Porque as pessoas enxergam isso como algo normal, do cotidiano, que vai trazer segurança para a vida delas. E a gente chega e diz: aqui na empresa, não. O setor produtivo do Estado do Rio de Janeiro é relevante para o Brasil e o compliance nas empresas sem sombra de dúvidas desempenha um papel importante nessa engrenagem. Pensando nisso, em 2018, fruto da participação de uma chamada pública para apresentação do sistema de integridade empresarial e das práticas corporativas anticorrupção, recebemos na Ceptis o reconhecimento da Casa do Empresário do Estado do Rio de Janeiro – ACRJ, um reconhecimento que serviu para fortalecer ainda mais nosso comprometimento com as ações coletivas pela integridade e contra a corrupção. Somos uma empresa signatária do Pacto Empresarial pela Integridade e contra a corrupção do instituto Ethos. É nesse sentido que atuamos com retidão engajados na missão de promover um mercado mais íntegro e ético, sempre na crença de um mundo melhor, um dos valores da nossa empresa. 

E como vocês trabalham para evitar que isso não aconteça na empresa? 

Buscamos ter robustez nos controles internos e nos treinamentos, mas não conseguimos treinar todas as pessoas no mesmo nível de profundidade de uma vez só. Então fazemos como todas as empresas organizadas. Fazemos avaliação de risco e onde a exposição a eles é maior trabalha-se mais, verifica-se mais as transações e treinamos mais essas pessoas. 

Essa necessidade de verificação adicional das informações, um excesso de documentação, sendo você estrangeiro, como isso soa? A palavra vale menos aqui?

Não me surpreende mais até porque o processo de Compliance implica certas obrigações. É obrigação deixar todas as coisas dentro da empresa documentadas, para proteger qualquer funcionário e a própria companhia. Mas isso precisa vir junto com a questão do equilíbrio. Quando você tem uma renovação de contrato, é necessário dar o mesmo peso na análise da documentação, uma vez que você já levantou anteriormente? Tem essa questão da rigidez do processo versus a agilidade. Procuramos manter a agilidade nos processos, mas você precisa ter o mínimo de documentação levantada. E de fato, na Suíça, por lei a palavra é evidência suficiente. Pode-se fazer um contrato verbal e ele será legalmente válido. A palavra tem muito valor. O Brasil é diferente, um país mais formal, mais burocrático. O desafio de trabalhar com o governo é evitar fazer burocracia por burocracia. A burocracia para gerir um risco, para evidenciá-lo faz sentido, tem valor e investimos nisso. Eu posso, daqui a dois anos, voltar para a Suíça e se alguém questionar sobre qualquer decisão tomada na empresa, sei que vai estar documentado, que seguiu o processo e que está justificado motivando a decisão tomada. Essa é a força de ter um sistema como esse.

Voltando a questão do equilíbrio, como foram evoluindo?

Vamos vivendo e aprendendo as experiências para melhorar sempre. Você tem duas abordagens: ou monta algo muito rígido e vai aliviando ao longo do tempo, dependendo das crises; ou você começa pela avaliação de risco, faz uma curva ABC, pega o que tem mais risco e deixa o processo dele mais robusto. No segundo ano pega outro processo e, depois outro ou entra mais em detalhes. Quando você tem um sistema de gestão, a revisão de processos e a busca por implementar melhorias é constante. Assim que evoluímos na questão da burocracia. Existe um limite que você não vai abaixar, ultrapassar esse limite de baixo é o comportamento inadequado. Também é preciso estarmos abertos para entender que nem sempre o que fazemos, do jeito que fazemos, é o melhor. 

Nem todos os riscos vão estar previstos no papel e a decisão pode depender da análise da situação naquela conjuntura e de você determinar quando um risco é aceitável e ter que falar para o Compliance que vai bancar aquele negócio. Acontece isso?

Acontece sim e não. Troco muitas ideias com a Isabela (Bragança, General Counsel e Compliance Officer da Ceptis), mas como existe sensibilidade da integridade, do que pode ou não fazer, espancamos muito todos os pontos de vista, riscos e potencial impactos. A maioria das vezes entramos em consenso e implementamos a decisão. Outras vezes posso tomar decisão talvez mais arriscada, mas sempre com um risco controlado e assumido. 

O importante da integridade é que você precisa demonstrar sempre que tomou a decisão mais adequada. Se a sua decisão cria uma suspeita, uma dúvida, melhor não tomar. A nossa regra de ouro, que vem da acionista, é muito simples: a ação tomada se tornar pública, isso vai causar constrangimento?

Mas ainda é uma decisão que não é objetiva. Para os suíços, para os americanos certos encontros poderiam ser permitidos, ou não. Mas para além disso, tem uma questão de valores. Porque uma pessoa pode se sentir constrangida em aparecer ao lado de uma determinada figura pública e outra não. E não estamos falando de uma questão legal, mais objetiva, mas de algo que já entra no campo da moral de cada um.

Os valores da empresa precisam ser definidos e comunicados claramente para que o funcionário, quando se encontra nessa situação, não precise pensar na experiência dele, nos seus valores pessoais. Ele pode se agarrar aos da empresa nessas horas. E no nosso caso, situações desse tipo são raras. Trabalhamos muito com os treinamentos de integridade para deixar claro os valores da empresa e as atitudes aceitáveis ou não com terceiros.   

Artigo publicado originalmente na edição 31 da Revista LEC.

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