As pessoas são a cultura

Para a presidente da companhia de tecnologia SAP, Adriana Aroulho, mais importante do que aplicar ferramentas inovadoras na gestão da governança, o que realmente importa é o comportamento humano, já que a cultura de integridade é feita por pessoas.

Desde agosto do ano passado à frente da operação brasileira da SAP, uma das principais empresas de softwares de gestão do mundo, a executiva Adriana Aroulho está na vanguarda do processo de transformação digital apoiando clientes dos diferentes mercados atendidos pela companhia a navegar nesse mundo novo, todo integrado, e que pede mais do que nunca, apoio da tecnologia para estabelecer novos modelos de negócios e, ao mesmo tempo, manter a gestão da empresa e dos seus processos sob pleno controle.

Mas, mesmo num ambiente no qual a tecnologia é o core business, Adriana faz questão de frisar que a cultura de integridade é construída por pessoas e que o comportamento humano, e não as inovações tecnológicas, que dão o tom dessa cultura.

Nessa entrevista à revista LEC, Adriana fala do tom que, como líder, busca dar ao papel do Compliance, de como interage com a área para resolver as red flags apontadas, da agenda de diversidade e inclusão da SAP, entre outros pontos.

Como a cultura de Integridade tem sido disseminada para os funcionários da SAP?

Eu gosto de demonstrar, pelo exemplo, como a área de Compliance é importante para a SAP. Participo com frequência dos treinamentos com demais líderes da empresa e incentivo o engajamento de todos nesses momentos. Entendo que a cultura de integridade precisa ser vivenciada e por todos, independentemente de cargo ou função. E como a gente faz isso? Por meio da comunicação, proporcionando um ambiente saudável, inclusivo e que permita que todos tenham liberdade e tranquilidade para abordar qualquer tema, seja qual for.

O programa ‘Compliance Ambassadors’, que conta com a participação de colaboradores e líderes da SAP de diversas áreas, como Vendas, Marketing e Operações, por exemplo, é uma iniciativa que permite a integração de diversos setores da companhia na pauta de Compliance. Entendemos que, para demonstrar que Compliance pertence a todos, a área precisa estar conectada ao nosso dia-a-dia e aderente aos negócios, sempre! Essa é uma cultura intrínseca aos nossos valores.  

E qual o tom que você busca dar ao papel da área de Compliance na empresa? 

Compliance é um tema que começa pela liderança e que, da mesma forma, é prioridade pessoal para mim. Princípios como ética e integridade fazem parte do que entendo como valores não negociáveis. Nesse sentido, Compliance não pertence apenas ao Compliance Officer da SAP, mas a todos da empresa, líderes e liderados. Mais do que estar em conformidade com a lei, com processos, com regras e códigos de conduta, Compliance é uma cultura que está no DNA da SAP e um valor compartilhado por todos nós.

O apoio da liderança das companhias aos seus programas de Compliance costuma ser testado de verdade quando a área aponta uma bandeira vermelha ou sugere o “travamento” de um determinado negócio, que pode impactar nos resultados ou no relacionamento com clientes. Você pode compartilhar alguma situação na qual precisou decidir sobre situações realmente críticas que, de alguma forma, opusesse a posição do Compliance com a de outra área na empresa?

Posso citar brevemente duas situações. Uma delas envolveu um distribuidor de software de serviço da SAP, na qual foram identificadas algumas red flags. O time de Compliance entendeu que os fatos eram graves e, por mais que o distribuidor trouxesse lucro à empresa, não gostaríamos que este lucro fosse associado a ilegalidades, o que gerou seu consequente desligamento. Outro caso diz respeito a uma associação que não concordou com nossos códigos de conduta e, dessa forma, optamos por não fazer mais parte dela. Tivemos outros casos também envolvendo fornecedores e parceiros que estavam desalinhados com nossa cultura de Compliance, e optamos por desligá-los de nosso ecossistema, com impossibilidade de retorno de serviço por um determinado período. Mais do que palavras, ações comprovam nossa proatividade neste tema.

Qual o seu approach para lidar com red flags apontadas pelo Compliance e que podem impactar o modo como a área comercial opera hoje, ou interferir num determinado tipo de relacionamento/operação com clientes? 

Primeiramente, ouço o departamento de Compliance. Caso eu entenda que determinada situação precise de uma verificação mais apurada e caso exista alternativa além da sugerida por Compliance, eu analiso com calma. Possuo um perfil conciliador, sempre ouço as pessoas, minha equipe, para tomar as melhores decisões. Costumo refletir sobre o que aconteceu e tento tomar a decisão mais equilibrada sempre que possível.

Você pode contar um pouco sobre como é o relacionamento entre você e a Denise, Compliance Officer da SAP?

Como presidente da empresa, também presido o comitê executivo de Compliance. Adicionalmente, me encontro regularmente com a Denise. Temos conversas bastante francas, transparentes e ela conta com meu apoio integral a qualquer momento. Como disse anteriormente, o Compliance, para mim, é um tema urgente e constantemente necessário. Não meço esforços para estar o máximo possível presente nesta pauta. 

Sendo uma empresa de tecnologia, imagino que a adoção de ferramentas e soluções de big data, inteligência artificial e machine learning permeiem todas as operações da companhia. Qual o papel dos dados e dessas tecnologias no desenvolvimento dos negócios da companhia e no monitoramento e acompanhamento desses negócios? 

Nossas ferramentas auxiliam na governança e também programas da área de Compliance. Por mais que tenhamos tecnologia, como IA e machine learning, entre outras, o mais importante é criar a cultura de integridade, feita por pessoas. Por mais que tenhamos ferramentas inovadoras para monitoramento, gestão e análise de sistemas, o que é realmente importante e faz parte do programa de Compliance é o comportamento humano.

Já em relação a nossos negócios, a SAP tem como premissa fazer o mundo funcionar melhor e melhorar a vida das pessoas por meio da inovação e da tecnologia. Com a transformação digital, ajudamos nossos clientes a se tornarem empresas ‘inteligentes’, oferecendo soluções capazes de otimizar recursos para alcançar os melhores resultados de forma ágil e com riscos reduzidos. Entendemos que a tecnologia é a habilitadora para criar valor aos nossos clientes. Muitas de nossas soluções já incluem tecnologias como machine learning e Inteligência Artificial, por exemplo.    

É importante mencionar também que a SAP, sendo uma empresa alemã, com operação em território brasileiro e demais países, segue todos os preceitos legais no que se refere à gestão e privacidade de dados. Sempre estivemos na origem dos debates envolvendo a GDPR da União Europeia e, consequentemente, a LGPD no Brasil. Todos os sistemas SAP estão alinhados com essas políticas regulatórias e reafirmamos nosso compromisso na correta gestão dos dados de nossos clientes.

Como a SAP busca criar um ambiente de negócios mais justo (comercial), inclusive do ponto de vista concorrencial, dentro do mercado de TI? 

Do ponto de vista concorrencial, tratamos todos os parceiros de maneira equânime, e existem regras muito claras na SAP de que ninguém pode favorecer ou prejudicar algum dos parceiros. Práticas anticoncorrenciais são expressamente proibidas na companhia. 

Defendemos um ecossistema forte, íntegro, no qual todos possam oferecer o que há de melhor em termos de serviços às organizações e às pessoas. Um ambiente de negócios mais justo é benéfico para todos, sem exceção.

Vendas governamentais são críticas no mercado de TI. Qual a importância delas para a SAP e que tipo de atenção a empresa tem na realização desses negócios, especialmente no processo de renovações de licenças?

As vendas para o setor público, de forma geral, são importantes, porém existem regulamentações específicas que necessitam serem atendidas, e o departamento Jurídico se faz muito presente nestas situações. A SAP possui uma política de setor público, além de um treinamento mandatório anual para todos os funcionários da empresa que atuam nessa área. Sobre a questão de renovação e contratação de licenças, entendemos que é um tema que fica a critério do setor público e não exercemos influência em absolutamente nada. A SAP tem o dever de mostrar o que tem de melhor em termos de tecnologia, apenas isso.

Você pode compartilhar alguns dados referentes ao canal de denúncias da empresa? Os funcionários têm sido incentivados a utilizar o canal?

Nosso canal de denúncias é anônimo, autônomo e absolutamente independente. Não tenho acesso a ele e, por questão de confidencialidade, não podemos detalhar os dados. Os funcionários são incentivados a utilizar o canal desde o primeiro dia de trabalho na SAP, logo após nosso treinamento de new hires. Em toda apresentação, os colaboradores são lembrados que existem ferramentas no departamento de Compliance, como o ‘Speakout’, nome do canal que optamos utilizar justamente por ser mais acessível às pessoas. Este canal de comunicação é disponibilizado para funcionários da empresa e público em geral. Estarmos próximos das pessoas e de nossos colaboradores e ouvi-los é uma de nossas prioridades na SAP.

Como se dá o processo de investigação e, eventualmente, de punição por infrações ao código de conduta da SAP? Existem instâncias colegiadas, como um comitê de ética, para aplicar as medidas disciplinares?

As investigações muitas vezes começam por denúncias feitas em nosso canal, muitas delas sob anonimato. Como mencionei anteriormente, não tenho acesso ao canal, mas confio plenamente no time de Compliance, que é a primeira instância de investigação dos casos. Ao fim do processo de apuração, o comitê disciplinar, composto pelas áreas de Compliance, RH e o gestor, determina qual será a aplicação e a consequência disciplinar correspondente àquele determinado caso. Como uma empresa multinacional, caso não haja um consenso no comitê, existe a possibilidade de escalar o caso para o nível regional, mas somente em processos excepcionais. Temos plena confiança no que é identificado e analisado internamente.

Falando um pouco sobre diversidade & inclusão, como esse tema é tratado na SAP? A empresa tem uma área específica para lidar com o tema? É qual o papel que a área de Compliance exerce em relação a esse tema?

A pauta de Diversidade & Inclusão é prioritária para nós. Sob liderança global e um time regional dedicado, a SAP trabalha com Redes de Funcionários (Employee Network Groups) com grupos de mulheres, LGTBQIA+, gerações, raça/etnia e pessoas com capacidades distintas. As redes são inclusivas e englobam as mais variadas ações: a Business Women’s Network (rede de funcionárias focada na igualdade de gênero e talentos femininos); Pride@SAP (rede que apoia a inclusão da comunidade LGTBQIA+ dentro da SAP); Black Employee Network (rede que cuida da conscientização e da inclusão dos profissionais de ascendência africana e seu desenvolvimento profissional); Different-Abbled People (rede que visa desenvolver ações focadas em pessoas com deficiência e oferecer suporte, além de debater sua inclusão em nosso quadro de colaboradores); SAP Autism at Work (rede que promove a contratação de pessoas autistas), dentre outras. 

O time de Compliance apoia integralmente nossas ações de D&I e, novamente, Compliance pertence a toda a empresa. Nosso programa ‘Compliance Ambassadors’, como mencionei anteriormente, é a prova disso. 

Artigo publicado originalmente na edição 32 da Revista LEC.

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